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quinta-feira, 21 de maio de 2015

Juanito (o borrego alentejano) e Fly (a cadela urbana) em Lisboa - As Ma...







É assim que, Juanito, um borrego alentejano,   com precisamente 1 mês de idade à data deste vídeo, decide confraternizar com a sua amiga Fly.

Juanito nasceu numa noite atribulada, no meio de um parto que envolve uma ovelha a querer parir e um Rafeiro do Alentejo a atacá-la.

Deste episódio sobreviveram dois borreguinhos. Um forte, já com lã pelo corpo todo, que nunca se pôs de pé e acabou por não sobreviver. E Juanito, enfezado, debilitado, com a mãe a afastá-lo abandonando-o à sua sorte. Sem querer saber. E ele, levantando-se numas patas finas, sem força e caindo de seguida. Fez esse movimento sempre que pode, com as forças que lhe restavam.

Quem luta assim pela vida tem de ser ajudado.

Dar-lhe leite de vaca foi instintivo, mas de todo não foi uma grande ajuda. O animal entrou em diarreia e a ficar com aspecto muito debilitado, pelo que no dia seguinte seguiu viagem para Lisboa onde foi internado no Hospital da Faculdade de Medicina Veterinária. E aí sim, os «anjos» fizeram milagres e conseguiram salvar o nosso amiguinho que fora baptizado de Don Juan (para lhe dar ânimo nos momentos difíceis).

Dois dias passados de Don Juan passou a chamar-se Juanito e foi, sem dúvida, a coqueluche do prédio.

A partir do momento em que se instalou num pequeno apartamento lisboeta, começou a encorpar e a ganhar peso de dia para dia até se tornar neste belo borreguinho à data deste vídeo.
Pela casa anda de fralda (abençoadas Lindor e só mesmo essas fazem jus à sua fama), gosta de «ler» bastantes livros - é vê-lo sempre ocupado a passear-se empunhando folhas na pequena boca d'enfant terrible.... sacos de alças, maiores que ele,  correndo freneticamente pela casa. Atacadores roídos em vários lados, papel higiénico a ser guardado em locais altos, fanático por adormecer encima de uma toalha de banho, isso sim é que é que é vida.  Os pacotes das fraldas e resguardos são-lhe também particularmente apetecíveis, bem como os fios eléctricos e os próprios portáteis . E uma das suas maiores diversões é ver pelo óculo da máquina de lavar a roupa a rodar, a rodar e a rodar.

Os seus pares nunca foram ovelhas. Ocupa o apartamento com dois humanos e um canídeo e essas são as suas referências. Passeia na rua, faz ruídos muito estranhos enquanto dorme. Rumina muito.
Conhece os cães da vizinhança que o acham criatura estranha, mas vizinho a tratar com cortesia.

Os dias e as noites deste mês e meio têm sido dedicados ao pequeno Juanito, que foi ganhando corpo entre mamadas de biberon e água, fraldas e passeios.

No quarto tem a sua cama com o chão forrado a edredon para os cascos não acordarem os vizinhos em baixo, um pouco de palha e a inevitável toalhinha onde se gosta de aconchegar.




sexta-feira, 19 de março de 2010

Ontem, mais uma vez, disfrutei de uma paisagem alentejana verdejante.
E do prazer que se tem em observar essa mesma paisagem, em viagem.
Os grandes ninhos cedo impuseram a sua presença. E em cada um, não apenas uma, mas cegonhas aos pares. Seus corpos, juntos, sem expepção.
Também os haviam sós, os ninhos, como que deixados ao abandono ou simplesmente à espera de quem chega a casa um pouco mais atrasado. Mas, os habitados, sempre, como disse, por um par destas majestosas aves.
Talvez tivesse sido da hora porque não me recordo de o ter presenciado noutra qualquer altura, nem em tantos quilómetros.

E ao observar, abrandar, parar, acelerar, senti novamente o gozo de uma viagem a solo. O quão libertador é. A alegria de disfrutármos de nós próprios. A opção de interagirmos ou não com o que nos rodeia.
Desligar. Apenas desligar e disfrutar o eu.
Ligar. Ligar e disfrutar de tudo. De tudo ou de nada. Ou de algo em particular.

A noite avançou, amena. E deu lugar ao encontro de um grupo de pessoas que encheram uma sala e, únidas por vários interesses, partilharam uma performance invulgar.
O silêncio deu lugar às palavras... Essas palavras de quem me era e continua a ser desconhecido. No entanto pareceram-me tão familiares e actuais. Num discurso fluido, sem rodeios. Palavras de alguém a quem vejo desaparecer lentamente, engolido por águas mornas, lodosas, e a quem faltou um outro alguém que, com uma mão firme, o agarrásse e emergisse para a vida. A vida como eu a entendo, especial, única, a que explode de dentro de nós e contagia, como de um virus se tratasse, os que connosco se cruzam.

No final, um porto de honra juntou aqueles que quizeram conviver um pouco dando um dedo de conversa. Momentos belos de troca e partilha. Faces mais ou menos vincadas de olhares doces e lábios que emitiam mais palavras. Palavras de homens desconhecidos. Vivos. Interessados em partilhar ideias. E ouvidos. Ouvidos por ouvidos que ouviam. Que ouviam e queriam ouvir. Sem pressas. Nem mesmo com dado o adiantado da hora.

O regresso foi solitário. Cat Stevens e a dupla Simon Garunkel foram os primeiros a invadirem o habitáculo. E não tardou que tivesse que elevar o volume do rádio para manter um nível de atenção razoável porque, a paisagem, essa, estava monotonamente negra. Talvez me tenha cruzado, no sentido em que seguia, por seis viaturas nos primeiros 2/3 do caminho.

Entrei numa Lisboa iluminada, adormecida.